Fintechs

Recentemente, o grupo E-Business recebeu Marcelo Bradaschia, especialista em Fintechs. Foi um encontro de altíssima qualidade e, para que vocês possam enriquecer seus conhecimentos sobre esse tema, compartilhamos as principais informações debatidas nesse grupo de estudos.

O que são Fintechs?

São iniciativas que aliam tecnologia e serviços financeiros trazendo inovações para pessoas e empresas. Isso se reflete em: melhores jornadas de utilização de produtos e serviços que trazem melhores experiências de uso; geração de inteligência a partir de volumes inimagináveis de dados e do conhecimento coletivo para otimizar as decisões; e integração dos diferentes elos do mercado de maneira muito mais eficiente, com menos falhas operacionais, aumentando a velocidade de transações e reduzindo custos.

O termo ‘Fintech’ surgiu da combinação das palavras em inglês financial (finanças) e technology (tecnologia). Esse nome, por si só, resume bem a ideia: Fintech é toda empresa que oferece serviços financeiros que se diferenciam pelas facilidades proporcionadas pela tecnologia e, com efeito, pela internet.

Cada vez mais orientados pelo uso da tecnologia, os serviços financeiros estão se tornando terreno fértil para a propagação das fintechs que vêm revolucionando o mercado de quatro formas:

User-centric design (desenho centrado no usuário).

Esta é uma das mudanças mais impactantes para o dia a dia das pessoas. E para as empresas? Não podemos esquecer de que por trás das empresas temos uma ou várias pessoas interagindo com um serviço e isto deve ser sempre levado em conta no momento de desenhar a solução. Diversas Fintechs colocam seu principal diferencial competitivo na maneira como se relacionam com os usuários. Isto pode parecer simples, mas não é. Entre em um site de um banco tradicional para ter uma ideia. Por que é tão complicado encontrar uma determinada transação e seu comprovante? Por que temos opções diferentes e telas diferentes para realizar DOC, TED ou transferências para o mesmo banco?

Serviços inovadores.

Os bancos e outras instituições financeiras sempre concentraram os serviços disponíveis para a indústria. Essa concentração trouxe uma grande acomodação em relação às soluções disponíveis para o cliente. A maior parte das novidades tinha por objetivo gerar receita imediata e não atender uma necessidade latente dos usuários. Uma prova disso é que nenhum banco no país investiu em uma boa solução de gestão financeira, apesar de ser um serviço já amplamente difundido nos EUA. Esses gaps de serviços estão sendo rapidamente supridos pelas Fintechs, que nascem com um DNA voltado para o entendimento da jornada e das necessidades das pessoas. Aliado ao user-centric design, o desenho de novas soluções traz a oportunidade para se repensar o status quo e para criação de soluções inovadoras.

Eficiência.

Na sua maioria, as Fintechs nascem para atender uma necessidade específica. São enxutas, focadas em seus core business, construídas sobre uma base tecnológica consistente, com plataformas modernas e integráveis aos serviços da nova geração cloud. Isto tudo reduz muito seu custo de operação e tempo para tomada de decisões. Também lhes dá uma ampla capacidade de integração com parceiros, fornecedores e seus próprios clientes, com menor custo e maior velocidade. Outro ponto a ser ressaltado é que grande parte das iniciativas de Fintech nascem do zero. São startups sem vícios e legados. Não precisam, por exemplo, defender o orçamento do próximo ano com base no ano anterior. Ou mesmo atender os interesses de acionistas que buscam resultados de curtíssimo prazo. Com isso, podem testar novos modelos de negócio e estratégias de precificação. Além disso, por estarem começando do zero, não tem sistemas com tecnologias ultrapassadas sobre a qual teriam que desenvolver suas soluções.

Reestruturação de relações e redistribuição de poder.

Imagine um cenário no Brasil em que você possa comprar ou vender um imóvel sem depender de registros em cartório. Imagine que o registro deste imóvel exista em milhares de servidores espalhados pelo mundo, de modo que seria impossível fraudá-lo. E em um ambiente com altíssimo nível de criptografia. Este é um exemplo de solução que o *blockchain conseguiria endereçar.

Simplificadamente, blockchain é um sistema descentralizado de registro de informações que garante segurança em transações e operações de diferentes tipos. Atualmente sua aplicação mais conhecida é como a plataforma que viabiliza a operação de Bitcoins, a cryptocurrencey mais conhecida do mercado. Por que isso é importante para o mercado financeiro? Hoje diversas instituições existem como entidades que vendem “confiança” com o papel de dar credibilidade para operações. São intermediários, que adicionam custo e tempo no processo, entregando maior segurança para as partes envolvidas. Alguns exemplos disso são os próprios cartórios, bolsas de valores, orgãos responsáveis pela liquidação de operações, agentes de custódia de títulos, bureaus de informação negativa, entre outros. A possibilidade de haver uma transformação (ou mesmo eliminação) destes papéis provocaria uma mudança radical no setor. E é para isso que estamos caminhando. Além do blockchain existem outras maneiras de reestruturação das relações, como é o caso de empréstimos peer to peer (P2P), que possibilita uma maior aproximação do investidor com o tomador de crédito, reduzindo o custo do processo.

*Blockchain é um sistema descentralizado de registro de informações que garante segurança em transações de diferentes tipos.

Estas quatro formas de revolucionar o mercado explicam porque Fintech tem sido um assunto tão presente nos fóruns de discussão e nas empresas atualmente.

No mundo, o movimento Fintech já vem se consolidando há mais de 5 anos. Inglaterra e Estados Unidos lideram as iniciativas existentes no setor. Gigantes já se tornaram parte do dia a dia, como o Lending Club que em 2015 movimentou mais de 8,4 bilhões de dólares, atuando em vários países com empréstimos P2P. O LendIt, maior evento de empréstimos P2P do mundo, já conta com edições com mais de 2.500 pessoas. Governos, investidores, empresas e universidades fomentam o mercado dando estrutura, recursos e velocidade para o setor. No Brasil, o movimento é mais recente e vem ganhando maior foco e estrutura nos últimos 2 anos. O brasileiro sempre contou com um sistema conservador e concentrado de serviços financeiros. Aliado a isso, há a dificuldade das grandes organizações mexerem em seu legado e a dificuldade de priorizarem a inovação em detrimento de questões do dia a dia.

Nestas brechas as Fintechs têm espaço para entrar e crescer. A revolução em outras indústrias aconteceu muito mais rapidamente, deixando o setor financeiro para trás. Por exemplo, o varejo online apresenta um crescimento consistente nos últimos anos. A experiência online mudou drasticamente, com soluções voltadas para uma melhor experiência do usuário. Não demorou para que empreendedores, desbravadores, vissem nessas realidade oportunidades para fazer diferente, com modelos de negócio inovadores, implementação ágil, baixo custo operacional, custos baixos de aquisição de novos clientes, eficiência operacional e escalabilidade.

Diversos fatores têm contribuído para este crescimento. O sucesso de iniciativas no exterior, o amadurecimento do empreendedorismo nacional, o acesso a conteúdos internacionais e investidores mais preparados para desbravar o mercado, são alguns exemplos.

Até a própria crise econômica é um incentivo para as Fintechs. Executivos da indústria financeira e de consultorias de gestão têm se motivado a saírem de seus empregos e a empreender. Não é para menos, o mercado financeiro não é para leigos e estes profissionais levam sua experiência para as startups. O conhecimento de legislação e o entendimento da dinâmica financeira requerem experiência.

Além da crise econômica contribuir com empreendedores qualificados, ela também dá combustível para nichos de atuação em que bancos e financeiras se tornam menos ativos em cenários de crise como, por exemplo, a concessão de empréstimos. Hoje, o país já conta com grandes cases de sucesso, como GuiaBolso, Conta Azul, Bank Fácil, Stone, Nubank, Asaas, Kitado, Vindi, Intoo, Biva, Geru, Eqseed, FoxBit, CloudWalk entre outros.

As Fintechs brasileiras: Radar FintechLab

O Radar Fintechlab está em sua 3ª edição. Ele faz parte da maior iniciativa de monitoramento do mercado de Fintechs nacional. São mais de 130 iniciativas mapeadas nas categorias Pagamentos, Gerenciamento Financeiro, Empréstimos e Negociação de Dívidas, Investimento, Funding, Seguros, Eficiência Financeira, Segurança, Conectividade e Bitcoin/Blockchain.

A evolução do setor se reflete nos números: Quase 70% das iniciativas monitoradas já estão em fase operacional, ou seja, já possuem clientes pagantes e já passaram pelas fases de ideação e de validação dos seus modelos de negócios. Em 2015, de cada 10 Fintechs, 3 tiveram faturamento superior a 1 milhão de reais. Neste ano, este número chegará a 50%. Esta realidade também se reflete em outro dado interessante: 1 em cada 5 Fintechs já possui mais de 20 funcionários contratados. Com maior consistência de resultados, as Fintechs têm conseguido atrair investidores, sendo que 2/3 delas já receberam algum aporte de capital. E, destas Fintechs, 38% receberam aportes superiores a R$ 1 milhão.

Apesar da mídia em geral dar muito enfoque para as soluções B2C que se refletem em mudanças no dia a dia das pessoas, as soluções de Fintech também estão presentes para o mercado B2B. Os números mostram que 31% das Fintechs são direcionadas exclusivamente para o consumidor final, 27% para empresas e 42% atendem ambos os públicos. Quase metade das Fintechs está em busca de investidores e 77% delas estão em busca de parcerias. E, de olho no futuro, aproximadamente 30% das Fintechs já estão se planejando para o mercado internacional. Os investimentos em startups de outros setores deve diminuir em 2016, segundo conversas que o FintechLab realizou com os principais VCs brasileiros.

Contudo, o apetite por Fintechs não parece ter sido impactado pela crise que vivemos. Estimamos que o investimento em Fintechs em 2015 foi de aproximadamente R$ 200 milhões. Em 2016, puxados por Moip e Nubank, devemos chegar a R$ 450 milhões. Ainda não se compara aos $15 bilhões de dólares que, segundo o The Economist, foram investidos em Fintech no mundo em 2015, mas nada mal para um ecossistema empreendedor em amadurecimento. As indicações são positivas. O FintechLab estima que o faturamento das Fintechs brasileiras já equivale ao resultado operacional do 16º banco, que foi de R$ 173 milhões, conforme ranking divulgado pelo BACEN. O pote de ouro pode parecer protegido, mas ano a ano as Fintechs ocuparão posições cada vez mais relevantes em termos de faturamentos e conquista de clientes. Confira a seguir o mapa das iniciativas que estão revolucionando o mercado brasileiro.

O que esperar para o futuro?

Novos “Ubers”? Alguns dizem que o fim dos bancos está próximo, outros que os postos de trabalhos estão ameaçados… nós acreditamos em um processo de revolução e adaptação. Apesar das disputas com os agentes atuais da indústria financeira serem inevitáveis, existe consenso que as mudanças ocorrerão. Assim, separamos algumas tendências para os próximos 2 anos.

Primeiramente, organização institucional das Fintechs brasileiras:

Surgindo como um movimento isolado, as Fintechs percebem que precisam se juntar para ganhar força voz a fim de se posicionarem e fomentarem mudanças mais estruturais no setor. Este é um movimento natural que já está sendo articulado. Com maior organização e peso, as Fintechs conseguirão dar saltos mais ambiciosos para a revolução do sistema financeiro. É esperado que órgãos reguladores observem atentamente o crescimento das Fintechs e a reação dos incumbentes do setor financeiro buscando indícios de inibição de concorrência, preços ou tarifas abusivas ou concentração de mercado. Neste sentido a organização do setor é primordial para ter voz ativa.

Internacionalização de iniciativas e aumento de investimento externo:

Dinheiro não tem fronteira. Assim como no Brasil, pessoas e empresas de todo o mundo precisam realizar transações, pagamentos, se organizar financeiramente, adquirir linhas de crédito, investir, etc. Isso abre espaço para as para diversos caminhos:

1) internacionalização de nossas soluções, como aconteceu com a Moip, adquirida pela Wirecard por R$ 165 milhões;

2) entrada de soluções estrangeiras no nosso mercado;

3) entrada de investidores estrangeiros, capitalizados em busca de boas oportunidades. Com o aumento da maturidade do nosso mercado de Fintechs, o Brasil se torna um cenário promissor.

Movimento mais agressivo dos bancos:

Os bancos não ficarão à margem deste movimento. Nos próximos anos devemos observar resultados das iniciativas que estão sendo plantadas nos dias de hoje pelas grandes instituições financeiras. Isto pode se dar pelo desenvolvimento de novas soluções ou pela  parceria ou aquisição de iniciativas existentes, por exemplo, temos vários casos, como o Simple que foi adquirido pelo BBVA e investimentos em iniciativas de blockchain.

Movimentação de grandes empresas de tecnologia

Já é uma realidade e isto deve se intensificar nos próximos anos. Apple, Samsung, Google, Facebook, etc. Todas as empresas estão de olho nas oportunidades que a revolução Fintech traz. Cada canal e plataforma tecnológica se tornaram uma possibilidade de integração com serviços financeiros. Tem uma grande base de clientes? Existe oportunidade no mercado de Fintechs. O Starbucks é um exemplo de sucesso. Seu cartão fidelidade e com carga pré-paga já corresponde ao seu maior volume de faturamento na rede nos EUA. A indústria de Telecom também deve intensificar seus movimentos para o setor de Fintechs, sendo uma camada viabilizadora e obrigatoriamente parte do processo.

Um grande case de blockchain

Sim, Bitcoin é um grande case, mas esperamos ver uma aplicação para os problemas atuais. Uma das grandes dificuldades do blockchain é migrar atividades que já estão consolidadas, pois necessita do alinhamento entre várias pontas dos processos. Dado o funcionamento extremamente integrado do mercado financeiro, acreditamos que o primeiro caso virá em outro setor de atividade, levando os olhares do mercado financeiro para a identificação de oportunidades latentes que essa plataforma tem potencial de trazer.

Fintech é um movimento muito maior do que o mercado financeiro. A possibilidade de realizarmos compras diretamente de nossa geladeira, compreender perfis de usuários com cruzamento massivo de informações, gerenciar nossas finanças de qualquer lugar do mundo, otimizar nossa forma de lidar com o dinheiro no dia a dia… tudo isso passa pela revolução Fintech. Estamos falando de um ecossistema em evolução e crescimento acelerado, que ninguém poderá se dar ao luxo de não participar ou de entender os impactos para o seu negócio, hoje e no futuro.

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No grupo de estudos de E-Business, trazemos temas relevantes ao cenário atual do mercado para discussão e análise dentre nossos associados. O conteúdo apresentado acima resume um pouco da discussão de nosso evento do dia 7/7, onde o grupo pôde trabalhar este assunto com mais detalhes. Fique ligado em futuros eventos de E-Business e acompanhe de perto novas tendências e trending topics relacionados a tecnologia.

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