Mercado aquecido para as fusões e aquisições no agronegócio brasileiro

Ao longo dos últimos anos, o agronegócio brasileiro foi um dos poucos setores a desempenhar bem mesmo com o baixo rendimento da economia do país como um todo, garantindo, ano após ano, o superávit da balança comercial brasileira. Em 2020, mesmo com os desafios impostos pela pandemia do Covid-19, não foi diferente. De acordo com dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA) e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o Produto Interno Bruno (PIB) do agronegócio brasileiro teve alta recorde de 24,31% em 2020 comparado ao ano anterior. Com esse resultado, o setor ampliou a participação na economia brasileira de 20,5% para 26,6%. Em valores monetários, o PIB brasileiro totalizou R$ 7,45 trilhões em 2020, e o do agronegócio atingiu quase R$ 2 trilhões. Os valores consideram o desempenho dos segmentos agropecuários, insumos, agroindústrias e agrosserviços.

Esse bom desempenho ao longo dos anos tem atraído cada vez mais investimentos para o setor. Mesmo antes do cenário de pandemia, o mercado já apontava as fusões e aquisições no agro como uma tendência para 2020. Fatores como a competitividade e o potencial do segmento no país, as baixas taxas de juros e a moeda desvalorizada frente ao dólar contribuíram para isso.

Somente em 2019 e 2020, um levantamento realizado pela PwC identificou 115 operações de fusões e aquisições no agronegócio brasileiro. Sendo que em 2020 o número de transações foi 73,8% superior em relação a 2019. Neste levantamento foram consideradas as operações de aquisição de participações controladoras, compra de participações não-controladoras, formação de joint ventures, fusão, incorporação e outras operações relevantes em valor e participação de mercado.

Entre as transações realizadas, é possível observar que alguns segmentos do agro vêm passando por um processo de consolidação. Um bom exemplo é o setor de distribuição de insumos, tradicionalmente um segmento no qual mesmo as maiores empresas atuavam de maneira mais regional. Nos últimos anos, tem sido possível observar multinacionais e até mesmo fundos de investimento investindo fortemente na aquisição de diversas empresas deste setor, ampliando o território de atuação desses distribuidores e criando os primeiros players de atuação verdadeiramente nacional neste segmento.

Outro segmento que vem sendo alvo de investimentos é o das agtechs e foodtechs, startups que promovem inovações no setor do agronegócio e de alimentos por meio da utilização de novas tecnologias aplicadas em algum ponto da cadeia de valor. Estas empresas estão sempre em busca de capital, seja para expandir sua atuação, para desenvolver alguma nova solução ou mesmo para melhorar as tecnologias já existentes.

Os aportes financeiros para as agtechs podem ser de valores mais baixos em comparação a outros segmentos. Dados de uma pesquisa da Anjos do Brasil em 2020, as agtechs são a segunda escolha de investimento dos cerca de 8,2 mil investidores-anjo no país com 27%, ficando atrás somente das fintechs (29%).

Em termos globais, os investimentos em agtechs e foodtechs aumentaram 15,5% em 2020, atingindo a cifra de US$ 26,1 bilhões. Os dados são do AgFunder AgriFoodTech Investment Report 2021. O valor, no entanto, pode chegar a US$ 30 bilhões, uma vez que faltavam negócios realizados ainda em 2020 serem compilados. Neste caso, o aumento chegaria a 34,5% em relação a 2019.

Foi também a primeira vez em 7 anos, desde que este levantamento global é realizado, que os investimentos em agtechs mais próximas do campo propriamente dito (o “dentro da porteira”) superaram os realizados naquelas mais próximas aos consumidores (o “depois da porteira”), como logística, por exemplo.

E se 2020 foi positivo para as transações no agronegócio, 2021 também começou em ritmo acelerado. Nos dois primeiros meses do ano, o número de operações registradas no Brasil mais do que triplicou no segmento agro em relação ao mesmo período de 2020. No período foram registradas operações de grande porte no segmento sucroenergético, como a compra da Biosev pela Raízen, enquanto outras transações e aportes financeiros importantes aconteceram no segmento de agtechs, de fertilizantes e no de distribuição de insumos agropecuários. A expectativa é que 2021 continue da mesma forma. Players importantes do agronegócio devem continuar investindo ao longo de 2021 e nos próximos anos.

As empresas e investidores devem pensar cada vez mais em estratégias para superar a crise ou mesmo continuar crescendo neste período. Com isso, as operações de fusão e aquisição podem se tornar cada vez mais atrativas. Condições como a taxa de câmbio atual, a necessidade de geração de caixa e o nível de endividamento de algumas empresas indicam um cenário favorável para os investidores e uma maior receptividade a investimentos por parte de diversas empresas do agronegócio.

Embora o cenário econômico com a pandemia ainda traga incertezas e exija precaução, a expansão dos negócios por meio de fusões e aquisições representa enormes possibilidades de ganhos quando as empresas são capazes de identificar sinergias e aproveitar as melhores oportunidades que o mercado oferece. No entanto, isso não é algo simples de se alcançar, pois exige dos envolvidos muita estratégia, planejamento, além de conhecimento profundo da dinâmica do mercado. É fundamental que as operações que surgirem possam ser avaliadas dentro da estratégia definida em cada organização, com avaliação robusta da capacidade de gerar sinergias e gerar ganhos futuros e não uma questão apenas de oportunidade.

 

Por: Maurício Moraes

VP de Governança e Integração com CFO’s do IBEF Campinas e líder da PwC no Interior.

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