Milton Paes
O IBEF Campinas Interior Paulista realizou, na última terça-feira (17), um encontro estratégico voltado à discussão dos impactos das normas IFRS S1 e S2 e sua integração com controles internos, governança corporativa e gestão de riscos. O evento reuniu mais de 40 participantes, entre executivos e profissionais das áreas financeira, contábil e de compliance.
Especialistas do mercado apresentaram uma abordagem prática sobre temas como adoção das normas, conformidade regulatória, materialidade e os principais desafios da agenda ESG nas organizações. Participaram dos debates Clayton Codo, sócio de Auditoria da Grant Thornton Brasil; Daniele Barreto, sócia de Business Consulting da mesma consultoria; Vinicius Laender, advogado da área de Direito Ambiental e Sustentabilidade da Lemos Advocacia para Negócios; e Diego Dalmas, sócio de Advisory GRC da Grant Thornton Brasil.
Durante o encontro, Daniele Barreto destacou que muitas empresas ainda não compreendem totalmente a abrangência das questões ligadas à sustentabilidade e ao clima, embora esses temas já estejam diretamente conectados às operações e à estratégia dos negócios. Segundo ela, as normas IFRS S1 e S2 representam um convite para que as companhias passem a observar essas dimensões com mais profundidade em seus processos e divulgações.
A especialista também ressaltou a evolução do tema ao longo dos últimos anos. “Houve um avanço significativo, especialmente impulsionado por movimentos regulatórios e pelo mercado financeiro, que tem atuado como indutor dessa agenda. Hoje, sustentabilidade deixou de ser apenas uma boa prática e passou a integrar o modelo de negócio das empresas”, afirmou. Para Daniele, as novas regulamentações contribuem não apenas para o cumprimento de obrigações, mas para maior transparência, conscientização e desenvolvimento sustentável.
Clayton Codo abordou os diferentes níveis de maturidade das empresas na preparação para divulgação de relatórios de sustentabilidade. Segundo ele, enquanto algumas companhias já avançam na transparência e na adoção voluntária de práticas, outras ainda estão estruturando processos internos. Ele destacou que o novo desafio imposto pelas normas está na quantificação financeira dos impactos climáticos, algo que, até então, nem mesmo empresas globais estavam plenamente preparadas para realizar. “O que está sendo exigido agora vai além: envolve mensurar financeiramente os riscos e oportunidades de curto, médio e longo prazo. Isso traz um novo patamar de complexidade e exige maior integração entre áreas”, explicou. Clayton também apontou que, para empresas listadas em bolsa, a divulgação dessas informações tende a influenciar diretamente a percepção de investidores e o valor de mercado.
Na perspectiva jurídica, Vinicius Laender alertou para os riscos associados à divulgação de informações incorretas ou incompletas, especialmente no contexto de práticas de greenwashing. Ele destacou que a Resolução 193/2023 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) estabelece a obrigatoriedade de publicação de relatórios de sustentabilidade para companhias abertas, o que amplia a responsabilidade das empresas. “A acuracidade das informações é fundamental. Ao mesmo tempo em que é necessário dar transparência aos riscos, é preciso cuidado na forma como essas informações são apresentadas, para mitigar possíveis responsabilizações jurídicas”, afirmou.
Segundo o advogado, a tendência é que a divulgação de informações relacionadas à sustentabilidade e ao clima se torne cada vez mais relevante e exigida pelo mercado.
Diego Dalmas enfatizou a importância da troca de experiências durante o evento e destacou que tanto empresas quanto consultorias ainda estão em processo de aprendizado diante das novas exigências. Ele observou que muitas organizações estão adaptando suas estruturas internas, criando comitês e incorporando especialistas em ESG para atender à crescente demanda por relatórios.“O tema ainda está em construção e não existe uma solução única que se aplique a todas as empresas. Cada organização precisa considerar suas particularidades para se adequar às normas”, pontuou. Segundo ele, a interação do público, que participou ativamente com dúvidas e contribuições, foi um dos pontos altos do encontro.
O evento consolidou-se como um espaço relevante para atualização e debate qualificado, proporcionando aos participantes uma visão estratégica sobre como fortalecer processos, aprimorar a governança e se preparar para as novas exigências regulatórias relacionadas à sustentabilidade e ao clima.