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Especialista alerta que endividamento afeta saúde mental, produtividade e resultados das empresas

Milton Paes

A saúde financeira tem impacto direto sobre o bem-estar, a saúde mental, a produtividade e a qualidade de vida das pessoas. O tema foi discutido no evento “Quando o dinheiro adoece – Os impactos na Saúde, no Trabalho e na Qualidade de Vida”, promovido pelo IBEF Campinas Interior Paulista, que contou com a participação de José Roberto Falcone, CEO do SD Group e das plataformas SD Positivo, SD Pague e SD Negocia, além de especialista em Bem-Estar Financeiro Corporativo.

Durante a apresentação, Falcone mostrou dados e experiências práticas para demonstrar como o desequilíbrio financeiro pode ultrapassar os limites da vida pessoal e se transformar em um problema também para as empresas. O estresse provocado pelo endividamento pode comprometer a saúde física e mental, afetar a capacidade de concentração e reduzir a produtividade no ambiente de trabalho.

Para o coordenador do Comitê de RH do IBEF Campinas Interior Paulista, Agostinho Zechin Pereira, o evento revelou uma dimensão do problema que muitas vezes não é percebida pelas organizações. “Eu, como a grande maioria das pessoas, tinha noção de que isso era um problema não só para as pessoas como para as empresas, mas não tinha noção de que era um problema desse tamanho”, afirmou.

Segundo Zechin Pereira, os dados apresentados chamaram a atenção especialmente pelos efeitos do endividamento sobre a saúde dos trabalhadores. Ele destacou o aumento da sinistralidade, o adoecimento mental e, posteriormente, físico, além do receio e da vergonha enfrentados por pessoas que não conseguem honrar seus compromissos financeiros. “É alarmante. Isso mexeu bastante comigo. Eu tinha consciência do problema, mas não do tamanho do problema. Algo precisa ser feito com muita urgência”, avaliou. Para ele, as empresas precisam reconhecer que o bem-estar financeiro dos colaboradores é uma questão estratégica e que existem profissionais capacitados para atuar preventivamente.

Mudança no perfil do endividamento

Falcone explicou que o levantamento apresentado durante o evento também revelou uma mudança no perfil das pessoas endividadas. Com experiência no mercado financeiro, o especialista acompanha há anos os indicadores de inadimplência e endividamento e afirma que, além do crescimento dos números, houve uma alteração significativa nas faixas de renda mais afetadas.

De acordo com ele, programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola, tiveram maior impacto inicialmente entre as faixas de renda mais baixas. Atualmente, porém, o problema também alcança pessoas com rendimentos mais elevados. “Hoje quem está pedindo socorro são as pessoas com as faixas salariais maiores, então a tendência é aumentar a inadimplência”, explicou.

Falcone chamou atenção ainda para as oscilações sazonais dos indicadores. Segundo ele, períodos de recebimento de décimo terceiro salário, férias ou outros recursos extraordinários podem provocar pequenas quedas temporárias na inadimplência, mas não necessariamente representam uma solução estrutural. “Muitas vezes a pessoa já entendeu que, se não pegar o dinheiro das férias para quitar a dívida, a conta não vai fechar”, exemplificou.

Na avaliação do especialista, o problema vem sendo alimentado por uma combinação de fatores, entre eles hábitos de consumo, influência do ambiente social e aumento do custo de vida.

Estresse financeiro pode levar a decisões irracionais

Um dos pontos abordados durante o evento foi a relação entre o elevado nível de estresse financeiro e a busca por alternativas consideradas de alto risco, como as apostas esportivas.

Falcone explicou que, em situações de extremo endividamento, algumas pessoas deixam de enxergar alternativas racionais para solucionar seus problemas financeiros e passam a buscar soluções rápidas, mesmo quando elas podem agravar ainda mais a situação. “Uma pessoa que está extremamente estressada, que já não tem mais saída, já não consegue olhar para a situação financeira e ver uma saída lógica. Então ela vai para as coisas irracionais, e as bets chamam a atenção”, afirmou.

Para o especialista, as apostas acabam sendo percebidas por algumas pessoas como uma espécie de última alternativa diante do desespero financeiro, embora possam aprofundar o problema em vez de solucioná-lo.

O impacto chega ao ambiente de trabalho

O endividamento também representa um custo significativo para as empresas, mesmo antes de o trabalhador desenvolver algum problema de saúde.
Falcone destacou o chamado presenteísmo, situação em que o funcionário está fisicamente presente no trabalho, mas tem sua capacidade de concentração e desempenho comprometida por problemas pessoais. “Quem não conhece um colega do lado que recebeu uma ligação de cobrança de um banco ou de uma conta que ficou em aberto? Aquilo tira a capacidade de raciocínio da pessoa de uma forma que ela perdeu uma série de horas dentro do trabalho”, relatou.

Segundo o especialista, as empresas atendidas por sua organização têm identificado cada vez mais esse tipo de situação. O problema pode resultar em perda de produtividade, aumento de afastamentos, maior utilização de benefícios de saúde e impactos sobre os resultados corporativos.

Falcone defende uma abordagem integrada entre saúde financeira e saúde mental. “A gente tem que olhar para o bolso, pois o bolso está adoecendo”, afirmou.

Na avaliação do especialista, ações estruturadas de educação financeira e saúde mental podem gerar resultados positivos para trabalhadores e organizações, especialmente quando as empresas conseguem medir os impactos dessas iniciativas.

Educação financeira como estratégia preventiva

Falcone também defendeu a ampliação dos programas de educação financeira no Brasil. Para ele, a falta de conhecimento sobre planejamento e organização financeira não é um problema exclusivamente brasileiro, mas uma questão presente em diversos países.

A educação financeira, segundo o especialista, deveria começar dentro de casa e ser reforçada nas escolas. No entanto, ele considera que as empresas podem desempenhar um papel relevante nesse processo, justamente porque sofrem diretamente os impactos do desequilíbrio financeiro dos trabalhadores. “Eu acho que o caminho mais fácil hoje está dentro das empresas, porque existe um impacto financeiro dentro das empresas. Não trabalhar esse lado, o custo que eu chamo de custo de inação, é grande”, explicou.

Para Falcone, ainda existe dificuldade por parte das organizações em dimensionar quanto dinheiro é perdido mensalmente em consequência de problemas relacionados ao estresse financeiro dos colaboradores.

A educação financeira também precisa envolver as famílias, permitindo que seus integrantes discutam objetivos e prioridades de maneira conjunta. Segundo ele, ainda é pouco comum encontrar famílias que consigam estabelecer e acompanhar coletivamente seus objetivos financeiros.

Custo de vida e juros agravam o problema

Outro fator destacado durante a apresentação foi a combinação entre custo de vida elevado e juros altos. Falcone citou como exemplo situações em que famílias precisam recorrer ao parcelamento para adquirir produtos básicos de supermercado.

Quando o crédito passa a ser utilizado para financiar despesas essenciais e recorrentes, a tendência é de agravamento do comprometimento da renda. Em seguida, a necessidade de novos empréstimos pode levar a taxas de juros ainda mais elevadas, criando um ciclo difícil de interromper. “O problema é que a pessoa vai ao supermercado fazer a compra do mês ou da semana e precisa parcelar isso. Em algum momento a conta vai chegar”, afirmou.

Segundo Falcone, à medida que o comprometimento financeiro aumenta, a percepção de risco por parte das instituições financeiras também pode elevar o custo do crédito para determinados consumidores, ampliando o efeito da chamada “bola de neve”.

O resultado, segundo ele, é uma situação em que despesas básicas, como água, luz, gás, telefone e alimentação, passam a representar uma fonte permanente de preocupação.

Mudança de hábitos pode começar com pequenas decisões

Para Falcone, a educação financeira não significa apenas aprender a investir ou controlar grandes volumes de dinheiro. Ela começa também pela capacidade de avaliar escolhas cotidianas e adaptar hábitos de consumo à realidade financeira de cada família.

Uma das alternativas é substituir produtos de determinadas marcas quando seus preços estão muito elevados por opções de menor custo, sem comprometer necessariamente a qualidade ou as necessidades básicas.

A mudança de comportamento, associada ao planejamento financeiro e ao acesso a orientação adequada, pode contribuir para interromper ciclos de endividamento antes que eles provoquem consequências mais graves.

O evento do IBEF Campinas Interior Paulista reforçou, assim, que a saúde financeira deixou de ser uma questão exclusivamente individual. Para as empresas, compreender e enfrentar o problema pode representar não apenas uma ação de responsabilidade com os colaboradores, mas também uma estratégia para reduzir custos, preservar a produtividade e contribuir para um ambiente de trabalho mais saudável.

Palestrante José Roberto Falcone. Crédito: Produtora KODA
Palestrante José Roberto Falcone. Crédito: Produtora KODA
Uma foto do Agostinho Zechin, coordenador do Comitê de RH do IBEF Campinas Interior Paulista. Crédito: Produtora KODA
Milton Paes A saúde financeira tem impacto direto sobre o bem-estar, a saúde mental, a produtividade e a qualidade de vida das pessoas. O

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