Milton Paes
A Reforma Tributária, regulamentada pela Lei Complementar 214/2025, está provocando mudanças que ultrapassam a área fiscal e tributária das empresas. A transição para o novo modelo, baseado principalmente no IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e na CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), deverá impactar processos internos, contratos, relacionamento com fornecedores, formação de preços, operações e responsabilidades de diferentes departamentos. Nesse cenário, a governança tributária passa a ocupar uma posição estratégica dentro das organizações.
O tema foi discutido pelo IBEF Campinas Interior Paulista, em parceria com a Pekatê Connect, durante o evento “Governança Tributária na Prática – Desafios e Oportunidades Reais da Reforma”, que reuniu cerca de 50 participantes. O encontro contou com a participação de Claudio Oliveira, mentor e conselheiro especializado em empresas familiares; Daiana Lopes de Oliveira, advogada e especialista na área tributária da Catalent Pharma Solutions Brasil; Franciele de Araujo Oliveira, especialista tributária na UPL, com atuação em transformação fiscal e reforma tributária; e Samir Karam, sócio e cofundador da Performa_IT e professor de pós-graduação na Unicamp.
A proposta do encontro foi discutir a Reforma Tributária a partir de situações práticas enfrentadas pelas empresas, abordando os desafios de adaptação de operações e processos internos, a necessidade de integração entre as áreas jurídica, financeira, fiscal e operacional e as oportunidades que podem surgir para organizações que se anteciparem às mudanças.
Durante o debate, os especialistas também destacaram os impactos da reforma sobre contratos, fornecedores, preços, cadastros de produtos, processos internos e governança corporativa. A avaliação apresentada pelos participantes foi de que a mudança não deve ser tratada como um projeto restrito ao departamento fiscal, mas como um programa institucional que envolve diferentes áreas da organização.
Para Julia Cossi, vice-presidente de Marketing e Ações Comerciais do IBEF Campinas Interior Paulista, essa visão mais ampla foi um dos principais diferenciais do encontro. Segundo ela, a proposta foi promover uma discussão menos concentrada nos aspectos exclusivamente técnicos da legislação e mais direcionada aos desafios operacionais e de negócio. “O que a gente buscou foi fazer um evento diferente porque a gente tinha muito a questão prática do dia a dia. As meninas trouxeram o que elas estão passando de dificuldades e tivemos o Claudio trazendo muito essa questão macro. Uma coisa que ele falou e me chamou muito a atenção é o projeto de reforma não se chamar projeto, mas sim um programa, algo mais macro, que não fique só centralizado na área fiscal, mas que seja pensado de forma institucional”, afirmou.
Julia também destacou que a Reforma Tributária exige a criação de novas rotinas de controle e acompanhamento, incluindo a análise da regularidade de fornecedores e a revisão de contratos firmados anteriormente. Para ela, a inteligência artificial pode contribuir para tornar esses processos mais eficientes. “Como a gente pode implementar rotinas para começar a checar fornecedor, para ver se ele está regular, para ver se o nosso contrato está adequado com o que a gente fez lá atrás de ajuste de cláusula? Tudo isso agregou bastante e o público participou bastante porque trouxe essa visão um pouco mais macro, não tanto em questão técnica, mas em questão operacional e de negócio”, explicou.
A aplicação da inteligência artificial também esteve entre os assuntos que despertaram maior interesse durante o evento. Julia Cossi ressaltou que, embora algumas grandes empresas ainda tenham restrições ou cautela em relação ao uso da tecnologia, existem aplicações capazes de otimizar tarefas repetitivas com mecanismos de segurança e controle. “O Samir conseguiu trazer exemplos práticos que ele mesmo já implementou em grandes empresas aqui do Brasil, no sentido de que é possível fazer a implementação de IA, ter uma otimização em grande parte dos processos e tarefas repetitivas com segurança”, avaliou.
Na avaliação de Claudio Oliveira, a Reforma Tributária pode ser utilizada pelas empresas como uma oportunidade para promover mudanças culturais e aprimorar seus modelos de gestão. Para ele, o debate mostrou que a implantação do novo sistema exige uma atuação integrada e não pode ficar restrita aos profissionais da área fiscal. “Entendo que a reforma pode ser uma oportunidade de reinventar nossas empresas, de ter uma mudança cultural e que, se bem utilizada, pode tornar as empresas mais competitivas e mais perenes”, afirmou.
Oliveira destacou ainda a necessidade de superar os chamados “silos” organizacionais, fazendo com que diferentes departamentos participem do processo de adaptação. “Não podemos pensar que ela é uma responsabilidade da área fiscal, mas sim que é um processo em que todas as áreas da empresa devem atuar. Precisamos quebrar os silos que temos dentro das empresas e fazer com que isso seja um processo, um programa de todas as áreas”, disse.
Para ele, a inteligência artificial também pode desempenhar papel relevante nesse processo, especialmente na busca por produtividade. “A IA é a bola da vez, mas provavelmente muitos de nós não estamos utilizando da melhor forma. O Samir trouxe exemplos práticos de como podemos trazer a IA efetivamente como uma ferramenta para melhorar a nossa vida, olhando para a reforma e para oportunidades dentro da própria reforma. Eu acredito muito na IA como uma geradora de ganho de produtividade”, afirmou.
A advogada Daiana Lopes de Oliveira chamou atenção para a dificuldade de ampliar o conhecimento tributário para áreas que tradicionalmente não estão diretamente envolvidas com o tema. Segundo ela, o conhecimento técnico deve continuar concentrado nos profissionais especializados, mas seus efeitos precisam ser compreendidos por toda a organização. “É de extrema relevância neste momento que as empresas consigam olhar para a Reforma Tributária e entender que ela vai muito além do tributário. É uma reforma que vem também para fins de governança”, afirmou.
Entre os impactos apontados pela especialista estão questões relacionadas à formação de preços, negociação, avaliação da regularidade fiscal de fornecedores e relacionamento contratual. Para Daiana, empresas familiares e organizações de menor porte também precisarão enfrentar o desafio de incorporar essa nova cultura. “É importante que a gente consiga mudar, quebrar paradigmas e mudar a cultura para que seja entendido que essa questão tributária e os efeitos da reforma vão impactar e que todo mundo tem que estar preparado”, destacou.
A especialista também ressaltou a importância da busca permanente por informação diante de um processo de transição que envolve mudanças regulatórias e operacionais. Entre as recomendações estão a troca de experiências com outros profissionais, participação em fóruns de discussão, acompanhamento de conteúdos especializados e atualização constante.
Franciele de Araujo Oliveira, especialista tributária na UPL, destacou que a governança tende a ganhar ainda mais relevância com a implantação do novo sistema tributário. Na avaliação dela, as empresas não estão apenas diante da construção de um novo modelo de tributação, mas também de uma nova estrutura de governança. “A governança veio para ficar. Está ainda mais forte e entra principalmente no que a gente já tem para verificar do passado e para um novo sistema. Essa governança vai ser extremamente importante. Estamos criando e desenvolvendo não um sistema tributário novo, mas uma governança nova, e essa governança envolve toda a empresa”, afirmou.
Franciele também ressaltou a importância da participação dos profissionais durante o encontro. Segundo ela, a diversidade de segmentos e áreas representadas entre os participantes contribuiu para ampliar a troca de experiências sobre os desafios concretos da Reforma Tributária.
Para Samir Karam, a mudança representa um desafio corporativo que precisa ser compreendido de forma abrangente. Segundo ele, áreas como compras, financeiro e comercial também precisarão entender como a Reforma Tributária poderá afetar suas atividades. “A reforma tributária é um tema que está afetando todas as empresas. Os participantes do painel trouxeram pontos de vista bastante complementares. De um lado, a reforma traz muitos desafios, principalmente desafios não apenas para a área tributária, mas para toda a corporação”, explicou.
Karam destacou que a adaptação não envolve apenas cálculos tributários, mas também educação, comunicação e revisão de processos. “Não é só uma questão de cálculo, é uma questão de modelo de pensamento da empresa. É uma questão de letramento, educação, sobre como isso vai impactar os processos e a área comercial e também uma questão de governança”, afirmou.
Nesse contexto, a inteligência artificial pode atuar como uma ferramenta de apoio em diversas etapas da transformação. Karam explicou que a tecnologia pode ser utilizada em processos que envolvem interpretação, análise documental, revisão de contratos, treinamento e organização de informações, sem substituir necessariamente os sistemas determinísticos responsáveis pelo cálculo dos tributos. “Você pode colocar a IA em todos os processos adjacentes que precisam muitas vezes de interpretação, de análise de textos, de revisão de contratos. Empresas que têm um volume muito grande de contratos que vão ter que ser revisados um a um podem utilizar a IA para ajudar nesse volume de trabalho”, exemplificou.
Outro campo apontado pelo especialista é a revisão e higienização de cadastros. Empresas com grandes volumes de produtos precisarão avaliar seus dados diante das mudanças provocadas pelo novo sistema. “A empresa vai precisar revisar todo o seu cadastro de produtos. Há clientes que têm mais de 500 mil produtos cadastrados dentro da sua base. A IA pode ajudar nessa sanitização, nessa higienização de dados”, explicou.
Para Karam, existe ainda uma relação direta entre inteligência artificial e governança. Quanto mais estruturados estiverem os processos, dados e documentos de uma organização, maior será a capacidade de utilizar ferramentas de inteligência artificial para gerar análises e apoiar decisões.
A discussão realizada pelo IBEF Campinas Interior Paulista mostrou, portanto, que a transição tributária deverá exigir das empresas uma abordagem integrada, na qual conhecimento técnico, governança, tecnologia e gestão passem a atuar de forma coordenada. Mais do que adaptar sistemas para atender às novas regras, as organizações terão de revisar processos, responsabilidades e fluxos de informação para lidar com um ambiente tributário diferente.
Nesse cenário, a Reforma Tributária coloca a governança no centro da transformação empresarial e abre espaço para que ferramentas tecnológicas, como a inteligência artificial, sejam incorporadas não apenas para automatizar tarefas, mas também para apoiar processos de controle, análise, comunicação e tomada de decisão.